eu

essa abstração estranha, como se fosse capaz

de sintetizar a epiderme desgastada

e as entranhas (sabe-se lá como estão)

revolvidas por notícias chovendo incontinentes

de bocas, telas, linhas, vozes

policaóticas

tem uma forma

que arqueja em obtusidade soturna

arfa em anseios impalpáveis

em busca do frescor dos suspiros

de outrora

olha para um bar e vê sorrisos

mas já é impossível transpor-se

para aqueles corpos

o passado, referência vazia

que esmaece ao cair da areia

lê conselhos de quem diz saber da vida

constata o absoluto fracasso no conforto

do imobilismo, do controle-remoto, da bebida no aparador,

da falta de vento no rosto

da fórmula repetida

batida contra a cabeça

de tanto viver olhando para a parede

desconcentrou-se

acabou mirando a janela

enquanto alguém, lá fora,

perdeu o olhar na mesma direção

mais uma morte anunciada

dessa estranha definição

rachada, de tão sólida.

mais um eu que se vai.

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prisão

mordo o ar espesso do sequestro

enquanto os seus tecidos coloridos

brincam com o vento que aqui

não vem

já não sei quantas vezes eu

olhei para o canto deste quarto e aprendi

todos os detalhes sobre o piso mal assentado e

o móvel carcomido que sobre ele pesa

não fazer a menor ideia dos seus passos,

a mais sábia escolha neste cubículo em que derreto

gota a gota

em dor

o calendário rasgado naquele dia em que o uísque

acabou. era (de) quinta.

me fez desistir de contar o tempo à força

para eu me sentir livre e pular de cabeça

na pedra invisível das minhas escolhas

mastigo esse bafo repetidas vezes

à espera de um sopro cada vez menos

provável

ninguém me prescreve coisa alguma

ou a mão estende

o copo d’água que vinha debaixo da porta

quebrou-se dia desses, sem substituto

já o prato parece o mesmo sempre

constatação que me vem ao observar o pouco

que pela fresta da janela é possível:

bandeiras auriverdes por toda a parte

dizendo haver ordem por aí

enquanto minhas entranhas rugem

um lento cântico final

perco, no derreter das horas,

a capacidade de imaginá-la:

carne já sem sabor, perfume, rouca

meus dentes abocanham o vazio.

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nove minutos

nove minutos
passaram

não faço ideia
do que passou
nestes nove
minutos

a vida pulsa nas mãos
eu sem saber
o que fazer.

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líquido

foi ontem que nossas mãos
pediram a mesma musica, não
queriam se soltar, eram nossas
línguas a mesma saliva, idioma
sobreposto em suores confluentes
em rio visto de cima, eram nossos
os futuros desenhados em que respirávamos
o mesmo ar e trocávamos perfumes, loucos injetados em face da abstinência, esse cheiro de morte
provocado pela ínfima ausência do corpo contraído ao toque que nos mete no salto alto da arrogância, topo do castelo de cartas – a vida –
de onde pulo, peito aberto, vento acariciando o rosto, perto do choque, onde o tempo cessa, a porta fecha,
o controle remoto percebe que já adormeci, perdido, à espera
de outros lábios.

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incógnita

é um corpo que contém a noite
montado sobre a vida:
sinuosa interrogação.

e ri, desdenha das cores
brinca com humanos
salva todos o gatos,
enquanto a cerveja esquenta
e a alma,
sua.

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ler devagar

o olho rápido
apenas vê;

a alma atenta

o leitor, faminto,
devora os versos
sem parar

lê: devagar.

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análoga

talvez seja feito maçã, a vida
ânsia vermelha de calor
que encontra calma apenas
na espuma do mar

desmaiada, entregue à areia
esperando o choque
para voltar

a vida é fruta imensa
impossível
de devorar
à tua maneira: inteira.

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pedido ao futuro

quero ter lembranças suas
uma carta, ao menos, com letras borradas
pelo ritmo que
não cessa

uma luz, uma fresta,
brilho qualquer escapado sem que
ninguém veja ou dê
pela falta

sinais, podem ser: bandeiras,
fumaças, beijos, cheiros, rascunhos, taças
tingidas, tintas

um possível recado a bailar na névoa
densa
a um palmo
dos olhos.

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visões

costumava prever tragédias.
um dia se olhou no espelho
e não saiu mais de casa.

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o capital

sujo
sujeito
sugado
pelo sistema

a mão que sangra
na ponta da faca
daquele
que tenta

fugir.

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