líquido

foi ontem que nossas mãos
pediram a mesma musica, não
queriam se soltar, eram nossas
línguas a mesma saliva, idioma
sobreposto em suores confluentes
em rio visto de cima, eram nossos
os futuros desenhados em que respirávamos
o mesmo ar e trocávamos perfumes, loucos injetados em face da abstinência, esse cheiro de morte
provocado pela ínfima ausência do corpo contraído ao toque que nos mete no salto alto da arrogância, topo do castelo de cartas – a vida –
de onde pulo, peito aberto, vento acariciando o rosto, perto do choque, onde o tempo cessa, a porta fecha,
o controle remoto percebe que já adormeci, perdido, à espera
de outros lábios.

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incógnita

é um corpo que contém a noite
montado sobre a vida:
sinuosa interrogação.

e ri, desdenha das cores
brinca com humanos
salva todos o gatos,
enquanto a cerveja esquenta
e a alma,
sua.

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ler devagar

o olho rápido
apenas vê;

a alma atenta

o leitor, faminto,
devora os versos
sem parar

lê: devagar.

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análoga

talvez seja feito maçã, a vida
ânsia vermelha de calor
que encontra calma apenas
na espuma do mar

desmaiada, entregue à areia
esperando o choque
para voltar

a vida é fruta imensa
impossível
de devorar
à tua maneira: inteira.

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pedido ao futuro

quero ter lembranças suas
uma carta, ao menos, com letras borradas
pelo ritmo que
não cessa

uma luz, uma fresta,
brilho qualquer escapado sem que
ninguém veja ou dê
pela falta

sinais, podem ser: bandeiras,
fumaças, beijos, cheiros, rascunhos, taças
tingidas, tintas

um possível recado a bailar na névoa
densa
a um palmo
dos olhos.

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visões

costumava prever tragédias.
um dia se olhou no espelho
e não saiu mais de casa.

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o capital

sujo
sujeito
sugado
pelo sistema

a mão que sangra
na ponta da faca
daquele
que tenta

fugir.

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