aromas atemporais

Eram sabores belgas que trafegavam língua abaixo revolvendo em maremotos de trigo e frutas – aparentemente na tentativa de mimetizar a tempestade áspera do lado de fora. Ler em silêncio: um bálsamo recantos nova-iorquinos como aquele. O idioma inaudível tornava-se ruído enquanto a espera virou suspensão. Era difícil compreender as frases mais elementares daquela leitura. Sentia apenas o álcool, uma réstia de tabaco, os murmúrios e o tempo. Uma cadeira vazia, à minha frente, magnetizava a atenção: como seria, naquelas condições? E se aparecesse, repentina? Teria um guarda-chuva? De que cor estariam seus cabelos? Quão distante aquele corpo estava da escultura psicológica que, com tamanho cuidado, ergui? Envelhecera? Haveria uma gravidade imperceptível no olhar?

Diante da taça de gim, enxerguei na placidez demoníaca do líquido um percorrer veloz na direção dos recônditos que não planejava mais visitar. Tornei passado, num rompante, uma história de décadas. Mulher, filhos, casa, momentos – enovelei todas as lembranças e seguranças para atirá-las sem pudor. Virei-me em direção à serra, senti a lâmina fria do outono percorrer o limite do penhasco e deixei, sem pestanejar, o peso do corpo pairar sobre as correntes de vento.

Acelerei serra abaixo. A brancura do para-brisas não intimidou suficientemente para romper a cortina de chuva que me apartava do mar. De repente, num bater de porta, após encher o cinzeiro de insatisfações e goles infindáveis de brigas, desafiei a inércia da bússola e procurei outro lugar para morrer.

O dia mal havia amanhecido quando as paredes da estrada já eram apenas árvores. No contrafluxo, os farois rumavam em ritmo obrigatório: destino cruel dos que trabalhavam no platô acima da serra. Há tempos o motor não experimentava uma lufada tão pura de liberdade, o mais cristalino dos ares. Os olhos, quase sem piscar, imaginavam um ponto ainda longínquo, que mais tarde se transformaria em um par de olhos escuros feito os belos ocasos da região. Como feixe inflado de rebeldia, afirmava-se na fresta do tempo uma mecha alourada em forma de trilha rumo ao vício. Acelerava profundamente, gritava abafado entre os vidros do carro, a degustar com o passar das placas a proximidade febril do desejo. Quanto mais avançava, sentia a intensidade elevar-me à beira de um sorriso nervoso e incontido, logo convertido em gargalhada. Muitos motivos justificariam perder o controle, enquanto o volante mantinha-se na direção correta.

Não imaginava encontrá-la depois de tantos anos. Sorrateira, quebrou a bolha dos extensos minutos e entrou pela porta giratória. A mesma voz, o olhar perturbador, o sorriso ariano, bélico. Nestes momentos é necessário atuar. Controlar os sentidos para que não digam, de pronto, absolutamente nada sobre o fascínio daquela materialização.

Contrair os músculos das mãos, de maneira que se percam em poesia no mais imediato impulso. Escutar vozes interiores a sussurrarem parcimônia para não desejar, feito um recém-saído das grades, a boca delicada, certeira, seletiva nas palavras e aromas. Entender a clara pele do destino, logo adiante, com o devido cuidado. Refrear os sonhos despertos de dançar num beco qualquer, entre as mesas de um restaurante noir, a trilha dos filmes que lhes tomaram tantas madrugadas. Recitar poemas no menor volume possível, cancelar reuniões, jogar pela janela papeis, telefones, compromissos, esquecer os filhos por algumas horas. Curvar-se a sua efemeridade preguiçosa das manhãs. Estabelecer um pacto para que se recorde de mim com uma periodicidade infinita. Perder os sentidos durante a longa espera entre fechar o portão e sentar-se como passageira. Ebulir, sem amarras, dos pés à cabeça; entrar e sair indiscriminadamente de aviões. Abrir o mundo apenas com sorrisos, ceifando a mata do desconhecido com a lâmina agridoce da ironia. Beber toda a vida possível. Ser feliz como sobremesa. Amar depois do café.

Como primeiro gesto, um abraço longo, inteiro e com um leve tremor. E dei-me conta, após cerrar os olhos: tratava-se do mesmo perfume.

Sobre Rodolfo Araújo

Jornalista, amante do teatro, um (des)crente (in)constante.
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