Beni

É enganoso o céu azul na Roma de outono para aqueles que fazem a previsão do tempo de janela fechada. Maldisse o mundo e Deus antes de tomar o caminho para o Vaticano. Segundo o aplicativo, não levaria mais de vinte minutos para chegar à visita guiada, cuja hora já estava marcada. Desconhecia o rigor dos católicos com horários e, de alguma forma, isso fazia germinar a fagulha de ansiedade que pretendia afogar durante as férias. Não se faz isso com um paulistano. Acordei tarde, mal comi e, atabalhoado como de costume, bati a porta sem olhar para trás – ainda bem que não esqueci a chave dentro do apartamento.

O bairro de Trastevere, embora perto das principais atrações turísticas da cidade, consegue ser uma ilha de paz e boemia ao mesmo tempo. Talvez essa percepção derive da rua em que me hospedei, mas de todo modo os semblantes e a organização urbanística não denotavam um lugar tão turístico e abarrotado de pessoas quanto as localidades a poucos quilômetros dali.

Apertei o passo rumo ao rio Tibre para depois seguir sua margem na contramão até uma praça que me levaria à rua cujo fim se dá na famosa Praça de São Pedro. O vento também seguia o contrafluxo e, naquela hora da manhã, era frio o suficiente para me cortar o rosto. Degustei o sabor da pressa em uma cidade cujo caos não remete ao desespero por fazer negócios – mas a uma corrida por esgotar a história, as atrações, paisagens, comidas, bebidas, monumentos e pessoas ali disponíveis. A ausência de regras, sobretudo no trânsito, gera uma auto-organização que flerta docemente com a completa desordem. Este limiar tempera a cidade.

Mesmo caminhando rápido, tentei olhar para os lados e entender um pouco das coisas que conseguia ver. Sorveterias, pés-sujos em que o proletariado local fazia a primeira refeição, muros pichados, calçada de pedra, uma ruína aqui e outra ali. Concentrado em cumprir o percurso a tempo, fui surpreendido por uma senhora que, à porta de uma pequena loja, chamou minha atenção sem pestanejar:

– Beni!

Olhei para trás sem perder o ritmo, enquanto a italiana, cujo rosto denunciava mais de setenta anos, ficava distante. Mesmo assim, passei o tempo todo pensando se eu fosse mesmo o tal Beni. Seria um neto? Um parente perdido? Um amor de infância renascido em minha pele? Um devedor que tomara um chá de sumiço? Um vizinho simpático que causou estranhamento ao andar tão rapidamente?

Se fosse Beni, tudo seria mais fácil?

Sobre Rodolfo Araújo

Jornalista, amante do teatro, um (des)crente (in)constante.
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