eu

essa abstração estranha, como se fosse capaz

de sintetizar a epiderme desgastada

e as entranhas (sabe-se lá como estão)

revolvidas por notícias chovendo incontinentes

de bocas, telas, linhas, vozes

policaóticas

tem uma forma

que arqueja em obtusidade soturna

arfa em anseios impalpáveis

em busca do frescor dos suspiros

de outrora

olha para um bar e vê sorrisos

mas já é impossível transpor-se

para aqueles corpos

o passado, referência vazia

que esmaece ao cair da areia

lê conselhos de quem diz saber da vida

constata o absoluto fracasso no conforto

do imobilismo, do controle-remoto, da bebida no aparador,

da falta de vento no rosto

da fórmula repetida

batida contra a cabeça

de tanto viver olhando para a parede

desconcentrou-se

acabou mirando a janela

enquanto alguém, lá fora,

perdeu o olhar na mesma direção

mais uma morte anunciada

dessa estranha definição

rachada, de tão sólida.

mais um eu que se vai.

Sobre Rodolfo Araújo

Jornalista, amante do teatro, um (des)crente (in)constante.
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